Este artigo analisa, em perspectiva teórico-conceitual comparativa, incompatibilidades fundamentais entre algumas das principais correntes do pensamento psicanalítico: a metapsicologia freudiana, a teoria kleiniana, a abordagem relacional e traumática de Ferenczi, a escola britânica das relações de objeto, especialmente em Fairbairn e Winnicott, a self psychology de Kohut e a releitura estruturalista de Lacan. Sustenta-se que […]
Este artigo analisa, em perspectiva teórico-conceitual comparativa, incompatibilidades fundamentais entre algumas das principais correntes do pensamento psicanalítico: a metapsicologia freudiana, a teoria kleiniana, a abordagem relacional e traumática de Ferenczi, a escola britânica das relações de objeto, especialmente em Fairbairn e Winnicott, a self psychology de Kohut e a releitura estruturalista de Lacan. Sustenta-se que as divergências entre esses modelos não se limitam a diferenças terminológicas ou de ênfase, mas envolvem rupturas em pressupostos centrais acerca da natureza do psiquismo, da etiologia do sofrimento psíquico e da função técnica do analista. Para desenvolver essa tese, o artigo examina oito eixos de divergência conceitual: o motor do psiquismo, a natureza do inconsciente, a etiologia do sofrimento, a ruptura ferencziana, a postura técnica, o destino do ego, os modelos de desenvolvimento e o universalismo estrutural. Também são considerados elementos históricos e institucionais que reforçam essa leitura, como as Discussões Controversas da Sociedade Britânica de Psicanálise (1941-1945), a ruptura formal entre Jacques Lacan e a International Psychoanalytical Association (1963) e o afastamento pessoal e teórico entre Freud e Ferenczi. À luz do conceito kuhniano de incomensurabilidade paradigmática, conclui-se que a tentativa de integrar, de modo simultâneo, a totalidade dessas teorias numa prática clínica única e coerente é epistemologicamente insustentável. O reconhecimento crítico dessas incompatibilidades aparece, assim, como condição necessária para uma prática psicanalítica tecnicamente consistente e eticamente responsável.
Palavras-chave: psicanálise; epistemologia; pluralismo teórico; técnica psicanalítica; história da psicanálise; incomensurabilidade paradigmática
